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UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A HISTÓRIA DO
CÃO DE ÁGUA PORTUGUÊS

Heitor do Vale Negro - LOP 81.435 - Ch. Port, Int, Esp, Hun, WW92, EW93
Prop. : Thereza Guedes

 

Em 1981, aquando do cinquentenário da Secção de Canicultura do Clube dos Caçadores Portugueses, e por motivo desse cinquentenário, recebi da então Direcção do C.P.C., presidida pelo saudoso Dr. António Cabral, a grata mas espinhosa incumbência de destrinçar algumas coisas mais na história do nosso Cão de Água. A homologação da raça pelo American Kennel Club em 3 de Junho de 1981, e os numerosos pedidos de Deyanne Miller e dos outros sócios do Portuguese Water Dog of América, eram também motivo próximo para aprofundar um pouco mais esta história, conhecida e desconhecida, clara e confusa, cheia de pormenores curiosos e de contradições.

Na verdade, tudo o que vou relatar não será mais do que um conjunto de pinceladas soltas, de histórias ainda não contadas e que falta sistematizar. Mas estou certa de que o interesse destes pequenos episódios não será posto em causa.

Haveria por época, em meu entender, três vertentes fundamentais na pesquisa a efectuar: pesquisa documental, bosqueio iconográfico e entrevistas pessoais àqueles que tinham acompanhado um dos momentos mais importantes desta história: a passagem do cão pescador para o ringue das exposições, pela mão de Vasco Bensaúde.

Assim começou, de um dia para o outro, uma estranha viagem por bibliotecas e museus: tudo em vão. Além do já conhecido trabalho do médico-veterinário Prof. Doutor Manuel Fernandes Marques, que , além do estalão de raça, publicara um artigo um pouco mais extenso na então "Revista de Medicina Veterinária", em 1938, parecia que mais ninguém escrevera sobre o Cão de Água em Portugal. A breve referência de Raul Brandão a estes animais, no livro "Os Pescadores", continuava a ser emocionante única. Também ninguém pintara ou desenhara Cães de Água, pelos vistos. A pesquisa era de facto desanimadora.

No entanto o Dr. António Cabral parecia disposto a não me deixar desistir. E insistia: "A menina ainda não foi a todas as bibliotecas nem a todos os museus!" - como se isso fosse possível. Acabei por enviar uma carta circular aos Conservadores de quase todos os museus do País, acompanhada de fotocópias de fotografias de Cão de Água. Pedi também ajuda ao Dr. José Manuel Ferrão, recém-licenciado em História e já então especialista de História de Arte: descrevi-lhe o Cão de Água pelo telefone, e expliquei-lhe o que pretendíamos. As respostas dos museus começaram a chegar, algumas com fotografias de quadros: tinham quadros com Cães de Caça, Bichons, Caniches; mas nada de Cão de Água. Era desanimador. Um Domingo, porém, ao regressar a casa à noite (vinha por acaso de uma exposição de cães fora de Lisboa, já não sei qual), e quando já toda a família dormia, encontrei um recado telefónico escrito por um dos meus irmãos: "Ana, telefonou o Zé Manel. Ele achou o cão". O laconismo do recado era eloquente. Na manhã seguinte, depois de uma conversa telefónica, fui ao Museu da Cidade (Palácio Pimenta, no Campo Grande, em Lisboa) onde, na Sala de El-Rei D. Fernando II, no expositor junto ao peitoril de uma janela, pude (confesso que com bastante emoção) observar a gravura sobre o desembarque de El-Rei Senhor D. Miguel na Praia de Belém, em 1828, onde um Cão de Água nada pressurosamente a caminho dos barcos... O Dr. José Manuel Ferrão tinha de facto encontrado o cão, que contudo só conhecia através de descrição verbal.

Esta gravura viria a ser fotografada e publicada, pelo nosso amigo Jornalista Fernando Brederode Santos, no n.º 50 da Revista "Mais", de 25 de Março de 1983, após indicação que tive o prazer de lhe fornecer.

Animada por esta descoberta, resolvi voltar à Biblioteca Nacional, onde já me deslocara inúmeras vezes sem obter quaisquer resultados. Nesse dia atendeu-me a Dra. Ana Isabel Albano Monteiro, também licenciada em História, e então técnica daquele organismo. Depois de escutar atentamente os meus objectivos, acompanhou-me numa nova volta aos ficheiros. Procurara já nas rubricas "Cães", "Pesca", "Litoral", "Algarve"... sei lá que mais! Naquela tarde a Dra. Ana Isabel lembrou-se de procurar no título "Mamíferos", o que me pereceu absurdo. No entanto, por cerimónia, não pus objecções. A ultima ficha daquele ficheiro intitulava-se "O Cão d’água - Costumes dos Pescadores e Técnicas de Pesca", e tinha, como Autora, Margarida Ribeiro.

O meu espanto foi indescritível. Quem seria Margarida Ribeiro?

 

UM CÃO DE PESCA

"Interessante nos parece agora frisar a importância que é dada pelos marítimos ao trabalho do cão; como estes valorizam este animal, considerando-o integrado na companhia; isto é, fazendo parte da guarnição do barco e tendo, como qualquer camarada, direito a um quinhão de peixe, para comederia, aproximadamente igual ao que compete a cada homem; e mais a quarta parte, em dinheiro, do que ganha qualquer dos componentes da companha. Peixe e jorna são entregues a um dos tripulantes, escolhido pelo arrais, que fica com o encargo de dar de comer e de bem tratar o referido animal..."(1).

É um excerto do primeiro texto dedicado ao Cão de Água Português, da autoria de Manuel Fernandes Marques, e publicado na Revista "Medicina Veterinária" em 1938, como um dos "Subsídios para o estudo das raças caninas nacionais". Mas ao mesmo cão se referia Raul Brandão em 1932, no seu livro "Os Pescadores", e a respeito da faina do alto dos caíques de Olhão: "Tripulavam-no vinte e cinco homens e dois cães, que ganhavam tanto como os homens. Era uma raça de bichos peludos, atentos um a cada bordo a ao lado dos pescadores. Fugia o peixe ao alar da linha, saltava o cão ao mar e ia agarrá-lo ao meio da água, trazendo-o na boca para bordo".(2)

Raul Brandão e Manuel Fernandes Marques referiam-se ambos à raça que o "Guiness Book of Records" apontaria em 1981 como sendo a mais rara do mundo... o que, mesmo a não ser verdade, chamou a atenção de muita gente para esta raça extraordinária de cães pescadores, corajosos e dóceis, inteligentes e combativos, afectuosos e alegres.

No princípio do século o cão de água era de facto peça indispensável no equipamento dos nossos barcos de pesca, não só nos caíques, mas também nas traineiras. Com a sua conhecida bravura e lealdade, estava pronto e atento aos movimentos dos pescadores, recuperando o peixe que se desprendia dos anzóis, algum objecto que caía do barco, rodeando as redes dentro de água, também a impedir fugas. "Mas nem sempre esta solicitude se mantém. Sucede às vezes o cão ver sair o peixe da linha e, em vez de se atirar ao mar, para ir busca-lo, como habitualmente faz, foge para o fundo do barco e vai esconder-se nas cavernas, ganindo. Em casos destes, os marítimos nunca os obrigam a cumprir; porque, no dizer deles, a atitude de fuga deve-se apenas interpretar como sinal de aproximação de tubarão ou tubarões, dos quais o cão seria vítima se o forçassem ir para o mar; certo como é, terem já sido trucidados por eles alguns cães, quando apanhados de surpresa dentro de água".(1)

Existem também diversos relatos de salvamento de homens caídos ao mar, pois não era tão frequente como hoje os pescadores saberem nadar. "Assim o homem da beira mar de aventurava em frágil batel vogando à mercê do tempo e… da sorte - teria encontrado no Cão d`Àgua o amigo dedicado desses momentos de alegria e tormenta, que o oceano proporcionava às vezes de surpresa, e leva o marítimo a praticar actos de verdadeira heroicidade…; pobre herói obscuro, quási sempre sem história raramente com espectadores a engrandecer-lhe o ânimo, o seu triunfo deve-o apenas, em grande parte, à extrema abnegação e indómita coragem com que afronta a procela".(1)

Nos momentos de repouso da faina pesqueira, tinha o cão um papel importante na guarda dos barcos e nas aparelhagens de carga. A sua aptidão para as tarefas de salvamento e a sua capacidade de transportar mensagens de um barco para o outro, ou entre os barcos e a terra, terão estado na origem da utilização destes cães também em navios não pesqueiros. "Clifford L. B. Hubbard afirma que o Cão d’água foi levado de Portugal para Espanha, durante a ocupação política e militar do nosso País. Com o gado que entrava em Espanha iam os cães, cujos méritos e robustez, imediatamente reconhecidos, foram postos ao serviço dos diferentes navios que constituíam, em Maio de 1588, a Invencível Armada (…). Exemplares desta raça deram à costa depois da destruição daquela armada. Segundo opinião de Hubbard, o actual Water Spaniel irlandês é um legítimo descendente do nosso Cão d’Água do final do século XVI". (3) (4).

O lugar do Cão de Água entre as populações ribeirinhas portuguesas (normalmente a sul de Lisboa, e na costa algarvia) é bem testemunho não apenas pela tradição de trabalho, mas também pela própria atitude dos pescadores para com estes cães: o seu já descrito lugar na companha; o facto de os Cães de Água, apesar do seu valor, nunca serem vendidos, mas sempre dados, porque se considerava que não tinham preço: e a amizade, nunca desprendida, que os pescadores de múltiplos relatos orais e escritos consagram ao seu cão…

O advento das tecnologias modernas de pesca e de comunicação iria tornar cada vez menos necessário o cão da embarcação. As companhas nem sempre podiam suportar os encargos de um cão que lhes tornava supérfluo. Pelos anos 30 os Cães de Água começaram a ser cada vez menos vistos nos barcos portugueses - embora ainda se vissem: "Apesar de se terem modificado muito as condições em que hoje se realiza a pesca do alto, é corrente ver-se ainda no nosso país, sobre tudo nalgumas terras do litoral em que os processos de pesca à linha são de preferência usados, o cão d’água fazer parte das companhas dos barcos utilizados nessa pesca" (1). "Ainda conhecemos (1940-45) os velhos caíques de Olhão que iam ao Mar da Cana apanhar pescada. No que respeita ao cão d’água, verificamos que o surto tecnológico dos últimos anos havia operado tão profundas modificações que víamos a nossa acção limitada a simples notas"(4).

Foi pelos anos 30 também que o Cão de Água pisou pela primeira vez os ringues das exposições. Nos anos 20, Renato Pinto Soares trouxera duas cadelas de Sesimbra, uma branca e outra castanha. Ainda não aberto o então L.O.P. (Livro de Origens Português), estas cadelas passaram anonimamente pela história da canicultura, tendo no entanto contribuído para despertar o interesse de Vasco Bensaúde pela raça. É no 2º volume do L.O.P. (publicado antes do primeiro) aparecem os primeiros exemplares registados de Cão de Água:

A DINA, com o n.º 2402, preta e branca, sem ascendência referida e sem data de nascimento conhecida; e o LEÃO, já então campeão nacional de trabalho e de beleza, nascido em Junho de 1931, filho de LONTRA e CIGANA. O campeão "preto com malhas brancas no peito e nas mãos" herdara certamente os atributos que justificaram os nomes dados aos seus progenitores. Foi um cão inesquecível, ainda bem presente na memória de quantos o conheceram. Das suas proezas no Jardim Zoológico, no tanque dos hipopótamos, ainda falam com encanto as crianças de então. Também Manuel Fernandes Marques e ele se referia quando descrevia o seu trabalho de cão à beira-mar: "Assistir ao trabalho de um bom cão de pesca que, sem hesitações, vai buscar ao fundo o objecto atirado de terra ou de bordo; vê-lo mergulhar, aparecer à tona de água passado algum tempo para tomar fôlego, submergir-se de novo, mostrando ao sair da imersão o objecto abocado, é um dos espectáculos mais interessantes e dignos de se presenciar nas praias do litoral"(1).

O LEÃO, que serviu de modelo ao estalão da raça, padreou sete ninhadas, tendo deixado trinta filhos registados. Além do LEÃO e da DINA, trouxe Vasco Bensaúde para Lisboa mais dois exemplares recolhidos no litoral algarvio: o NERO e a VENESA. As Historias da obtenção destes cães têm todas qualquer coisa de pitoresco ou fantástico, pois eram exemplares adultos, e o cão do pescador não se vendia…"Ó meu senhor, o LEÃO eu só o vendia se me saísse a sorte grande! Ai, mas se me saísse a sorte grande, ai juro que lho dava". E algum tempo depois vinha um recado do filho do pescador: que tinha saído a sorte grande ao pai, que podiam ir buscar o cão.

Destes exemplares criara Vasco Bensaúde a linha "Algarbiorum" de Cães de Água, que seleccionou óptimos cães, embora com elevado grau de consanguinidade. Anos depois, com data de Junho de 1954, aparece registado o primeiro Cão de Água que não tinha a sua origem no Canil Algarbiorum, nem era propriedade de Vasco Bensaúde. Era o SILVES, propriedade do Dr. António Cabral, que se propusera recompor outra linha de Cães de Água, sem ir buscar sangue Algarbiorum. Assim começava a criação de Cães de Água com o afixo Alvalade. Também aqui não foi fácil obter os cães no Algarve. "Não dou nem vendo, senhor doutor. Não insista. Estes cães não se dão nem se vendem!". E então a pergunta inspirada ao pescador da Praia do Carvoeiro: "Estão e se trocássemos?". "Ai isso já é outra coisa!". E, conversa havida, o pescador acedeu a trocar o cão por uma cana - uma cana que fosse boa para a pesca. Foi uma cana da índia, da Quinta de Mata-Mouros, em Silves, que esteve na origem dos cães de Alvalade.

Os Cães de Água actualmente existentes e registados no L.O.P. - e que felizmente estão já muito longe de serem tão raros como o "Guiness" afirmou - têm, na sua grande maioria, sangue de pelo menos uma destas duas grandes linhas de criação e selecção da raça.

Em Portugal existem actualmente cães de muita qualidade e assiste-se a um interesse renovado pela raça. É de desejar que a selecção a continuar não seja feita apenas segundo critérios morfológicos, mas seja também baseada nas aptidões, no gosto natural pela água que estes cães devem ter, e na sua capacidade de natação e mergulho.

"Parece que para os antigos romanos ele era conhecido por "cão leão", em virtude do corte do pêlo em juba, que já nessa época se fazia".(1) "É velha usança que a gente do mar tradicionalmente conserva e a necessidade justifica: tosquiar o cão d’água quando o crescimento do pêlo assim o requer, a fim de que ele não seja prejudicado no nadar; visto o pêlo comprido encher-se de água e não permitir o necessário desembaraço nos movimentos do animal, para a rápida apanha do peixe que se vai desprendendo dos anzóis (…). Alem do corte em juba, também lhe libertam os olhos e a boca, cortando raso o pêlo nessas regiões, para a visão ser perfeita, as ventas respirem livremente e a boca poder actuar sem nada de permeio. Se assim não fosse , o serviço do animal seria muito prejudicado" (1). Era assim então a tosquia tradicional do pescador: libertar os movimentos do animal para lhe facilitar o trabalho dentro e água, deixando contudo na parte anterior do corpo o revestimento necessário para proteger a caixa torácica dos choques térmicos, aquando dos mergulhos.

…"Corte que nessa época se fazia, e que entre nós ainda hoje pela força da tradição e, talvez um pouco, pela vaidade do marítimo que o acha mais bonito com o pelo cortado assim". (1)

… Vaidade do canicultor, que á tosquia tradicional e de trabalho acrescentou a fronte coberta por uma trunfa, muito embora a tosquia de exposição seja ainda uma tosquia de trabalho.

"Animal de inteligência invulgar, compreende e obedece facilmente e com alegria a todas as ordens do seu dono. Animal de temperamento ardente, voluntarioso e altivo, brigão por índole, sóbrio e resistente à fadiga. Tem a expressão dura e um olhar penetrante e atento (…). É dócil e obediente para quem dele cuide e com frequência o acompanhe" (5).

"Podem os canicultores, a quem esta magnífica raça desperte interesse - e o nosso Cão de Água bem merece que se interessem por ele - de certo modo orientar as suas criações, no sentido de produzirem exemplares dignos de registo"(1).

 

BIBLIOGRAFIA

  1. Manuel Fernandes Marques - "O Cão d’Água". Revista de Medicina Veterinária, Lisboa, 1938.
  2. Raul Brandão - "Os Pescadores", Lisboa, 1932.
  3. Clifford L.B. Hubbard - "The Book of the Dog", Los Angeles, 1948.
  4. Margarida Ribeiro - "O Cão d’Água - Costumes de pescadores e técnicas de pesca", Lisboa, 1974.
  5. Frederico Pinto Soares; Manuel Fernandes Marques - "Estalão do Cão de Água Português". Secção de Canicultura do Clube de Caçadores Portugueses, 2ª edição, 1951.

 

 

MARIA ANA MARQUES

Médica Veterinária

Professora da E.S.M.V.

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